segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

RESENHA: Passageiro para Frankfurt: o alerta de Agatha Christie



“– O idealismo – disse Lord Altamount – pode assomar e de fato geralmente assoma quando instigado por um natural antagonismo à injustiça. Trata-se de uma natural repulsa ao crasso materialismo. O natural idealismo da juventude é alimentado cada vez mais por um desejo de destruir essas duas fases da vida moderna, a injustiça e o crasso materialismo. O desejo de destruir o que é maligno por vezes acarreta o amor à destruição apenas em nome da destruição. Pode levar ao prazer da violência e à inflição da dor. Tudo isso pode ser nutrido e fortalecido de fora por pessoas dotadas de uma natural capacidade de liderança. O idealismo original surge num estágio pré-adulto. Ele deveria e poderia levar a um desejo por um novo mundo. Deveria também levar a um amor por todos os seres humanos, à boa vontade em relação aos outros. Mas aqueles que aprenderam a amar a violência pela violência jamais se tornarão adultos. Ficarão fixados em seu próprio desenvolvimento retardado e assim permanecerão durante a vida toda”.

Como leitor apaixonado e também como autor, sempre me surpreende quando outro escritor consegue prever o futuro. Já tive a felicidade, ou o terror, de constatar em nossa realidade ecos do que já havia posto em minhas histórias. No meu blog Escritor com R estão disponíveis todos os contos da fase inicial de meu Multiverso da Lista, publicados na saudosa revista Sci-Fi News. Neles, entre outras coisas, critiquei regimes totalitários e toda a forma de censura, inclusive aquela mais sub-reptícia, que defende a higienização de obras que alguns enxergam como “preconceituosas”.

E em ao menos duas ocasiões vi indivíduos do meio político atacando a “infiltração da cultura estrangeira”, ou “o ataque de gêneros musicais que usam obscenidade”, também, de certa forma, “previstos” nas histórias dA Lista. Como escrevi, por um lado fico feliz, e por outro apavorado.

A falta de liberdade e a censura nunca começam com o candidato a ditador da vez anunciando o que vai fazer. Sempre é em nome do que é justo e belo, para proteger as pessoas delas mesmas. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, frase atribuída a Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos.

O trecho que abre este texto é do livro Passageiro para Frankfurt, de Agatha Christie. Fiquei muito surpreso ao descobrir que muitos consideram esse seu pior livro. Pesquisando a respeito, descobri que se trata de uma história de espionagem a fim de desvendar uma grande conspiração de alcance mundial, coisa que, claro, muito me interessa, e isso me incentivou a lê-lo.

Confesso, é o segundo livro da Rainha do Crime que leio. O primeiro foi Assassinato no Expresso Oriente. Passageiro para Frankfurt foi lançado em 1970, sendo um dos últimos livros de Agatha. Conforme li em outra resenha, a que me incentivou a lê-lo, ele é tanto uma celebração dos oitenta anos de nossa amada autora, quanto um alerta para coisas que ela via acontecer no mundo e não gostava nem um pouco.

Surpreendentemente, diante da atualidade inegável da trama, o livro nunca foi adaptado para outras mídias. Começa com o diplomata Stafford Nye aguardando sua conexão no Aeroporto de Frankfurt quando é abordado por uma bela jovem dizendo que sua vida está em perigo. Nye não progride na carreira, pois sua rebeldia e irreverência atrapalham, mas tais características são o que o fazem aceitar a insólita proposta da mulher.

Os acontecimentos se atropelam, ele é chamado para se explicar no corpo diplomático, sua tia Lady Matilda Cleckheaton lhe dá conselhos e insinua a existência de um complô mundial, e finalmente ele encontra novamente a garota misteriosa na ópera.

Aliás, para mim Lady Matilda é a melhor personagem do livro. Algumas vezes a vejo como o alter-ego da própria Agatha Christie!

Ela se apresentou no aeroporto como Mary Ann, mas seu nome verdadeiro é Condessa Renata Zerkowski. Renata o leva à reunião de um grupo de pessoas poderosas, que descrevem como inúmeros tumultos eclodindo pelo mundo são elementos de uma conspiração para tomar o poder mundial. Logo fica claro que a origem da trama é originária do nazismo.

Agatha explora as teorias malucas de que Hitler teria fugido para a Argentina, e descreve a escalada dos tumultos ao redor do mundo com dramaticidade cada vez maior. Naturalmente, estes foram inspirados nos tais movimentos estudantis, principalmente os de 1968 na França, que a autora indiscutivelmente não via com bons olhos. E afinal, estes resultaram no quê?


Ao mesmo tempo, a Dama critica ainda a inação e passividade da velha guarda da política, que não foi capaz de lidar com a rapidez das mudanças no mundo. Releiam o trecho destacado no começo. Não parece exatamente o que tem acontecido em nosso mundo hoje, inclusive no Brasil?

A mesma hipocrisia de defender causas sociais, a diversidade e a pluralidade, mas combater ferozmente a pluralidade de opiniões. A mesma violência pela violência, o mesmo pouco apreço às instituições sem as quais só há dois caminhos: ditadura ou barbárie.

Agatha Christie questiona, em Passageiro para Frankfurt, se a prometida sociedade mais livre e sem regras do final dos anos 1960 de fato melhorou o mundo. E claramente aponta que, em sua opinião, não. Naquela época e hoje, por exemplo, “ser jovem”, “resistir”, significam que cada um pode fazer suas próprias escolhas? Ou o que é mostrado como “liberdade” é na verdade a obrigação de anular sua própria individualidade para obter permissão de fazer parte do grupo?

O livro até navega pela mesma trilha de Laranja Mecânica, quando se abre a possibilidade de recorrer a um processo científico de mudança de comportamento das pessoas, tornando-as benevolentes e preocupadas com o próximo. Aí também, claro, a Dama critica as velhas elites, que falharam em criar, nesse mundo em cada vez mais acelerada transformação, as possibilidades do maior número possível de indivíduos realizarem e desenvolverem seus potenciais.

Ela ainda aponta que, tanto na época de sua escrita, quanto na ascensão do nazismo nos anos 1930, e até em nossa época, certas elites poderosas manipulam o desejo das mudanças precisamente para que nada mude, e as mesmas velhas figuras continuem a assombrar os corredores do poder.

Por sinal, uma das coisas que mais adorei sobre esse edição da L&PM foi a introdução A Autora Fala, onde Tia Agatha (às vezes a chamo assim) comenta sobre seu processo de criação. Ela afirma que tira as ideias de sua própria cabeça, e que seus personagens igualmente são fruto de sua imaginação. Além disso comenta: “Se uma ideia em particular parece atraente, se você sente que poderia fazer alguma coisa com ela, então você a joga de um lado ao outro, faz alguns truques com ela, vai desenvolvendo e aparando essa ideia, e aos poucos lhe dá uma forma. Aí, é claro, você precisa começar a escrever. Isso não é nem de longe uma boa diversão: a coisa vira trabalho duro”. O cenário, no entando, ela considerava que está fora do autor ou autora, que é interessante você visitar lugares e observar situações para buscar inspiração. E termina dizendo: “Podemos conjeturar uma causa fantástica? Uma Campanha Secreta pelo Poder? Pode um desejo maníaco de destruição criar um novo mundo? Podemos ir um pouco mais longe e sugerir a libertação por meios fantásticos, que soam impossíveis? Nada é impossível, a ciência nos ensinou isso. Esta história é, em essência, uma fantasia. Não pretende ser nada mais. Mas a maioria das coisas que acontecem nela estão acontecendo, ou prometendo acontecer, no mundo de hoje. Não é uma história impossível – é apenas uma história fantástica”.

Obrigado, tia Agatha!


Passageiro para Frankfurt não é um livro fácil, e muito provavelmente muitos não o apreciem por não trazer os personagens preferidos da maioria, como Miss Marple ou Hercule Poirot. E também por fugir dos padrões que a própria Agatha estabeleceu em sua obra, e aí já entramos novamente no assunto da liberdade. Uma escritora, no caso, ou um escritor, pode e deve experimentar e fazer diferente. E buscar em suas ansiedades, seus medos e expectativas, é sempre um bom lugar para encontrar ideias para uma trama.

E a ansiedade de Agatha Christie, em Passageiro para Frankfurt, é sem dúvida enorme. É muito claro que ela sentia o peso de seus quase oitenta anos na época, e também não gostava nem um pouco do mundo que estavam criando. Alguns chamam esse livro de seu testamento, e eu digo que foi um enorme prazer lê-lo. Não é daquelas obras fáceis que você lê e coloca de lado, mas sim um livro que faz pensar, se mantém surpreendentemente atual, e serve como um alerta a respeito do que estamos fazendo com o mundo e com as outras pessoas.

É sem dúvida um chamado de atenção para criarmos um mundo autenticamente mais tolerante, uma responsabilidade que reside em cada um de nós.

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